
Atualmente há um número elevado de nascimentos precoces,e estimativas da Organização Mundial de Saúde (OMS) apontam que anualmente nascem no mundo 20 milhões de bebês prematuros, um terço dos quais morre antes de completar um ano de vida. No Brasil, segundo o jornal Folha de São Paulo, cerca de 60% dos bebês que nascem prematuros sobrevivem graças ao contato mais
intenso entre a mãe e o filho no período de hospitalização.
Assim, há um interesse cada vez maior em se compreender a importância da presença da mãe na UTI neonatal e de que forma essa intervenção atua no desenvolvimento do recém-nascido prematuro e de baixo peso.
Estudos já realizados, como os de Klaus e Kennell (1992), Bee (1996) e Bowbly (1984), enfatizam a importância de se estabelecer uma relação entre a mãe e o bebê, com base em um vínculo afetivo, já que este contato mais íntimo permite ao bebê um sentimento de proximidade e segurança, além de estimular mecanismos sensoriais e imunológicos que irão repercutir de forma decisiva no seu desenvolvimento.
Quando nasce, o bebê prematuro perde semanas de estimulação no útero materno, e devido às complicações trazidas por esta situação, o neonato deve ser levado às instalações tecnológicas de uma UTI neonatal, para uma incubadora, cuja função Davidoff (2000) define muito bem: permite manter a temperatura, a umidade e o oxigênio, além de prevenir infecções; porém priva a criança de outro tipo de estimulação.
Para Cunha (2004), o recém-nascido, na UTI, está imerso no isolamento e solidão da incubadora, que o impede de criar um espaço psíquico com uma figura receptora de sua angústia, que possa ajudá-lo a organizar seu ego. Para o bebê a incubadora fará o papel de placenta materna, porém isso não o impede de receber estímulos, muitas vezes percebidos de forma negativa, pois não há contado direto com a mãe. Isso porque a vida na UTI é muito diferente da do útero materno e traumática para o bebê; tanto que Wirth ( 2003 ) afirma que a vida na UTI é hiperestimulante e que o bebê pode senti lá certa agressividade, já que a luz é forte, os ruídos são desconhecidos e os cuidados são dolorosos.
Não obstante, existem autores, como Spitz (2000), segundo os quais o recém-nascido não reconhece o mundo externo, pois seu aparelho perceptivo é protegido do mundo exterior por uma “barreira de estímulos”. O próprio Spitz levanta a hipótese de que os estímulos vindos de fora só são percebidos quando seu nível de intensidade excede o limite normal da barreira de estímulos, o que destruiria a quietude do recém-nascido, fazendo-o reagir violentamente a esse desprazeres. Se levarmos em consideração a afirmação de Wirth (2003) de que o bebê sofre na UTI, em média, 130 manuseios por dia e os sons de uma UTI giram em torno de 80 db , ou seja, está exposto a uma quantidade de estímulos excessivos, podemos levantar a hipótese de que os estímulos vindos da UTI rompem com esta “barreira de estímulos” descrita por Spitz, e isso destrói a quietude do recém-nascido prematuro e o leva a perceber o mundo externo, podendo assim sentir a mãe e reconhecê-la, já que não a tem mais como parte de si.
Outra pesquisadora do assunto, Gandra (2003), afirma que o bebê prematuro é hipersensível a estímulos sensoriais, o que pode ser estressante, pois desde muito cedo, ainda na vida fetal (entre o quarto e o sexto mês) o bebê já apresenta certas funções básicas desenvolvidas, como, por exemplo, a audição.
Voltando aos estudos de Spitz (2000), encontra-se a afirmação de que a mãe é um mecanismo importante para proteger o recémnascido dos estímulos externos. Com esta afirmação o autor está nos apontado que a mãe impede que o bebê tenha uma estimulação altamente carregada. Esse selecionar de estímulos é uma necessidade para o recém-nascido que ainda não apresenta suas estruturas psíquicas (isso é, o eu e o supereu) totalmente organizadas. Em face disso pode-se perceber que o isolamento de um bebê em relação a sua mãe em uma UTI não é necessariamente positivo, pois com o rompimento da “barreira de estímulos” o bebê sente o mundo externo e precisa de um mecanismo que o proteja. Destarte, inserir a mãe na unidade de terapia intensiva é um aspecto importante para o bebê.
autora
Psicologa Vanessa Thalita Romanini Amadeu
CRP- 08/11867